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Desde o ínicio do ano de 2009 que uma moeda virtual tem vindo a marcar a diferença no horizonte dos pagamentos digitais. O principal ingrediente do bitcoin [1] é uma tecnologia inderrubável que até então nem tinha sido muito notada — a blockchain [1] [2] (white paper).

A blockchain é uma tecnologia sofisticada que permite salvaguardar registos de uma forma distribuída e não centralizada uma vez que não existe uma entidade de gestão central. Este sistema também conhecido como livro razão, tem o objetivo de guardar registos de transações e os registos de todas essas transações são atualizados em cada nó da rede e não apenas no nó central de gestão (porque efetivamente esse nó não existe). Sempre que é consumada uma transação na rede todos os nós da rede são informados. Ele funciona com base numa cadeia de blocos, nada mais do que um conjunto de informações que são ligadas a cadeias adjacentes. Estes blocos são públicos, no sentido em que todos os nós da rede podem aceder a essa informação. Porém, estes blocos quando são processados não podem ser alterados nem apagados. Além disso, novos registos só podem ser feitos mediante um processo de auditoria.

Em seguida é apresentado um infográfico [3] onde é ilustrado de forma breve o modo de funcionamento da blockchain.

bockchain


Esta tecnologia tornou-se de facto tão interessante que foi vista como uma possível implementação de segurança para os mais diversos setores, como por exemplo:

  • O Dutch Central Bank está a desenvolver um protótipo (DNBCoin) para a sua própria moeda digital [4];
  • O Deutsche Bank (com sede na Alemanha), o HSBC e o Barclays (ambos com sede na Inglaterra) utilizam tecnologia com base na blockchain desenvolvida pela IBM e com o contributo de outras empresas [5];
  • O Mizuh Bank no Japão também realizou testes experimentais durante 3 meses [6];
  • A KRX, operador da bolsa de valores na Coreia do Sul pretende inaugurar uma plataforma blockchain para estimular as transações off-board [7];
  • Também a startup norte-americana R3 CEV formou um consórcio de 25 bancos de investimento com o objetivo de implantar uma rede blockchain privada para substituir sistemas internos [8];
  • A ICAP, uma empresa britânica de serviços financeiros também já usa a blockchain [9];
  • A Nasdaq, onde se negociam ações de empresas de tecnologia em Nova York, usa a tecnologia blockchain para registar troca de ações [10];
  • MUSE Blockchain, mundo da música, representa um sistema que está reforçando a transparência necessária para a indústria musical, abordando problemas com distribuição de royalties, licenciamento e equidade de artistas [11];
  • Citizen Ticket visa trazer transparência, segurança e justiça à venda online de bilhetes de eventos [12];
  • EUA Storj, uma solução de Cloud está atualmente a testar uma rede blockchain para melhorar a segurança e diminuir a dependência de um provedor central [13];
  • Também os sistemas de votação estão a adotar a tecnologia. A informação relativa ao voto continua registada mas totalmente anónima [14];
  • A IBM desenvolve projetos que visam aperfeiçoar o sistema blockchain [15].
  • Ucrânia usa blockchain para identificar propriedades rurais e evitar fraudes [16];
  • IBM e Samsung desenvolvem um sistema para construir uma rede de dispositivos distribuídos – uma Internet das coisas descentralizada [17]; e
  • Etherify: a primeira empresa portuguesa focada em criptomoeda e ‘blockchain’ [18].


De entre muitas vantagens, o sistema blockchain oferece:

  • O registo em ordem cronológica de todas as transações da rede;
  • Todas as novas transações são validadas por cada nó da rede;
  • Possui um sistema público, exclusivo, replicado com todos os nós da cadeia;
  • A atualização da rede acontece de forma voluntária e descentralizada, isto é, não existe uma entidade central que orquestre toda a rede;
  • Recompensa — os nós recebem uma recompensa relativa à tarefa de mineração (embora possa ser alterada a lógica dessa recompensa nas redes públicas e privadas).

E ainda podem ser enumeradas a maior independência, segurança, transparência e agilidade na transmissão das informações uma vez que não existe um terceiro nó de confiança. A nível da banca permite uma redução dos custos de transação e um sistema de pagamento otimizado, com tempo de liquidação acelerado. Dentro dos cuidados de saúde, a blockchain tem também o potencial de proteger os pacientes e as instalações médicas contra percalços de administração e segurança, debates de seguros e infrações de dados clínicos.

Muitas empresas e até instituições, como os bancos, o próprio Santander (sediado na Espanha), Citibank (sediado nos EUA), Goldman Sachs (sediado nos Estados Unidos), BBVA (sediado na Espanha), Westpac e Commonwealth Bank (sediados na Austrália) e muitos outros, já realizaram experiências com a finalidade de adaptar este sistema criptográfico aos seus sistemas, interesses e finalidades [19].

Afinal de contas, a descentralização acarreta diferentes benefícios para os mais diversos contextos. Para a banca permite, por exemplo:

  • Acelerar a liquidação de transações;
  • Pagamentos cross-border entre bancos “nacionais” e investidores estrangeiros;
  • Armazenamento de documentos e contratos;
  • Tracking de transações;
  • Pagamentos entre pessoas que não têm conta bancária; e
  • Privacidade do cliente final (anonimato).


Hoje em dia a blockchain é uma enorme cadeia de dados digitais, e ela é considerada por muitos “imutável” por uma simples razão: — é extremamente dispendioso contornar uma transação já validada na rede. Atualmente a rede possui um poder de processamento de cerca de 5.988.701.03 TH/s (dados de julho de 2017) [
20]. Este número “grande” tem um significado ainda maior — Se algum indivíduo, grupo de indivíduos ou mesmo entidade quiser alterar alguma transação já validada, seria preciso no mínimo 50% + 1 do poder de processamento da rede, isto é, certa de 299.435 TH/s — um valor de processamento gigantesco.

Todavia, um dos maiores problemas na adoção deste modelo criptográfico é que ele é extremamente complexo de aplicar, principalmente porque cada projeto possui o seu próprio esqueleto e também os seus próprios ideais. Existem atualmente esforços de código aberto (open-source), como é o caso do HyperLedger [21] da IBM, o Ethereum [22] e o Corda [23] que são algumas plataformas para o desenvolvimento de sistemas com base na blockchain.

Estima-se que nos próximos anos a blockchain seja largamente usada o que contribuirá para uma melhor segurança na transmissão da informação através da própria Internet. Esta será certamente uma revolução muito semelhante àquela que ocorreu com a Internet.

 


Referências

[1] https://bitcoin.org/bitcoin.pdf
[2] http://scet.berkeley.edu/wp-content/uploads/BlockchainPaper.pdf
[3] https://seguranca-informatica.pt/infografico-modo-funcionamento-do-blockchain/
[4] http://www.coindesk.com/dutch-central-bank-cryptocurrency-experiments/
[5] http://uk.businessinsider.com/deutsche-bank-hsbc-kbc-natixis-rabobank-socit-gnrale-and
[6] http://www.coindesk.com/mizuho-blockchain-recordkeeping-digital-currency-trials/
[7] http://www.coindesk.com/korea-exchange-launches-blockchain-powered-private-market-
[8] https://dailyfintech.com/2016/11/28/why-the-r3cev-blockchain-consortium-is-splintering
[9] http://www.coindesk.com/icap-blockchain-rosetta-stone/
[10] http://business.nasdaq.com/Docs/Blockchain%20Report%20March%202016_tcm5044-2
[11] https://bitcoinmagazine.com/articles/three-startups-trying-to-transform-the-music-indust
[12] https://www.citizenticket.co.uk/
[13] https://storj.io/
[14] http://www.nasdaq.com/article/6-blockchain-applications-that-go-beyond-bitcoin-cm716269
[15] https://www.ibm.com/blockchain/
[16] http://experienceclub.com.br/ucrania-usa-blockchain-em-terras/
[17] http://www.coindesk.com/ibm-reveals-proof-concept-blockchain-powered-internet-things/
[18] http://www.jornaleconomico.sapo.pt/noticias/etherify-nasceu-a-primeira
[19] http://www.coindesk.com/8-banking-giants-bitcoin-blockchain/
[20] https://blockchain.info/
[21] https://www.hyperledger.org
[22] https://www.ethereum.org
[23] https://www.corda.net